Aula 9 de 20 · Nível 2: Ler os seus valores

Como fazer uma boa medição de VFC

Uma boa medição da variabilidade da frequência cardíaca (VFC) é uma medição repetível. Meça no mesmo horário e na mesma posição todos os dias, respire naturalmente e não se mexa por um a cinco minutos. Assim, as mudanças de um dia para o outro refletem você, e não o modo como mediu.

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Pontos principais

  • Meça no mesmo horário e na mesma posição todos os dias.
  • Respire naturalmente e fique em silêncio, sem se mexer, por um a cinco minutos.
  • Descarte medições estragadas por movimento ou com batimentos extras sinalizados, e meça de novo.
  • Fazer sempre do mesmo modo importa mais do que o método escolhido.
Ao final desta aula, você será capaz de
  • Montar uma medição matinal repetível: horário, posição, respiração e duração.
  • Explicar por que fazer sempre do mesmo modo importa mais do que encontrar um único método certo.
  • Reconhecer os sinais de uma medição ruim e saber quando descartá-la.
  • Aplicar o mesmo raciocínio aos dados noturnos de um relógio, anel ou pulseira.
  • Listar as condições que os pesquisadores controlam antes de um registro, com os respectivos prazos.

Uma boa medição de variabilidade da frequência cardíaca (VFC) é uma medição repetível. Meça no mesmo horário e na mesma posição todos os dias, respire naturalmente e não se mexa por um a cinco minutos. Assim, as mudanças que você vê de um dia para o outro refletem você, e não o modo como mediu.

Esta aula trata das medições curtas que você mesmo faz, por exemplo com uma cinta peitoral e um aplicativo, ou com a câmera do celular. A última seção aplica as mesmas ideias aos dados noturnos de um anel ou relógio.

Por que as condições importam mais do que o dispositivo

A VFC reage rápido ao que você está fazendo. As diretrizes de pesquisa pedem que os cientistas controlem a posição do corpo, a fala, o movimento, a respiração, a cafeína, o álcool, as refeições e o exercício intenso do dia anterior, porque cada um deles pode alterar a VFC (Laborde e colaboradores, 2017; Catai e colaboradores, 2020).

Se as condições mudam de uma manhã para a outra, as medições mudam também, e você pode acabar perseguindo uma tendência que na verdade reflete a rotina. Nenhum dispositivo corrige isso.

Seis regras para uma boa medição matinal

  1. Meça no mesmo horário, pouco depois de acordar. Vá primeiro ao banheiro e meça antes de tomar café, de comer e de olhar o celular.
  2. Use a mesma posição todos os dias. Tanto deitar quanto sentar funcionam. Escolha uma posição e mantenha-a.
  3. Respire naturalmente. Não desacelere nem ritme a respiração, a menos que sempre faça isso.
  4. Fique em silêncio e sem se mexer. Não fale, não leia mensagens e não fique mudando de posição.
  5. Meça por um a cinco minutos. Use a mesma duração todos os dias.
  6. Use o mesmo dispositivo e o mesmo aplicativo. Dispositivos diferentes dão valores diferentes, como mostrou a aula 8.

Essas regras seguem a lista de verificação de padronização de Catai e colaboradores (2020) e as recomendações de Laborde e colaboradores (2017), adaptadas para uso doméstico. Os protocolos de pesquisa vão além e colocam números nas exigências:

Antes de um registro de pesquisaA regraFonte
Acomodar-se na posição do registroPelo menos 5 minutos (uma diretriz), pelo menos 15 (a outra)Laborde 2017; Catai 2020
Café, chá, energéticosNenhum nas 2 horas anterioresLaborde 2017
RefeiçõesNenhuma nas 2 horas anterioresLaborde 2017
ÁlcoolNenhum nas 24 horas anterioresLaborde 2017
ExercícioSem treino intenso no dia anteriorLaborde 2017
SonoUma noite normal, com os horários de deitar e de acordar anotadosLaborde 2017
BexigaIr ao banheiro antesLaborde 2017
HorárioO mesmo todas as vezesLaborde 2017; Catai 2020
Posição e movimentoA mesma posição; sem se mexer nem falarLaborde 2017

Em casa você não consegue controlar tudo isso; por isso, anote o que não conseguiu manter igual. O exercício prático no fim mostra como.

Qual deve ser a duração da medição?

Cinco minutos é o padrão de pesquisa para um registro curto de VFC, definido pelas normas internacionais de 1996 (o documento de padrões da Sociedade Europeia de Cardiologia e da Sociedade Norte-Americana de Estimulação e Eletrofisiologia) e ainda recomendado onde os resultados precisam ser comparados entre estudos (Task Force, 1996; Laborde e colaboradores, 2017). Muitas vezes dá para usar menos, sobretudo no RMSSD RMSSD Raiz quadrada da média dos quadrados das diferenças sucessivas: medida de VFC calculada a partir de quanto cada intervalo entre batimentos difere do seguinte, em milissegundos. Reflete principalmente a atividade vagal. Mais sobre RMSSD .

Em um estudo com 3.387 adultos com idade média de 53 anos, medidos na posição deitada, o RMSSD de um único trecho de 10 segundos já concordava bem com um registro padrão de 4 a 5 minutos, e a concordância era quase perfeita com 2 minutos. O SDNN SDNN O desvio padrão de todos os intervalos NN de um registro, em milissegundos. Mede a variabilidade global, e o valor depende muito da duração do registro. Mais sobre SDNN precisou de mais tempo; os autores sugerem pelo menos 30 segundos (Munoz e colaboradores, 2015). Um estudo menor, com três atletas de elite, constatou que 2 minutos davam um RMSSD preciso na posição deitada, enquanto janelas de 1 minuto eram nitidamente menos precisas. Os autores sugerem deixar o coração se acomodar por cerca de um minuto antes de essa janela começar (Bourdillon e colaboradores, 2017).

Assim, uma medição de um a dois minutos, feita depois de um minuto de acomodação, é razoável para acompanhar o RMSSD diariamente. Mais tempo também serve, desde que você use a mesma duração todos os dias.

Deitar, sentar ou ficar em pé?

Cada posição dá um valor diferente, e por isso as diretrizes de pesquisa dizem que a VFC é “muito sensível” à posição do corpo. Quando você fica em pé, o sangue se acumula nas pernas, e o reflexo que regula a pressão arterial afrouxa o freio vagal e pisa no acelerador para manter o sangue chegando à cabeça. Quigley e colaboradores (2024) descrevem menor atividade vagal Tônus vagal A influência contínua do nervo vago sobre o coração, que o desacelera. Costuma ser estimada a partir de medidas de VFC, como o RMSSD e a potência HF. Mais sobre Tônus vagal e maior atividade simpática em pé, com diferenças ainda maiores em relação à posição deitada.

Escolha cada posição no modelo abaixo. A frequência cardíaca sobe e o RMSSD cai ao passar da posição deitada para a sentada e para a de pé. Os valores são de um modelo didático; o que importa lembrar é a direção.

Freio e acelerador

Um modelo didático, não uma medição

Frequência cardíaca
60 bpm
RMSSD
58 ms

Definido pelos controles deslizantes abaixo

Deitado. O coração não precisa trabalhar contra a gravidade. O freio aperta ao máximo, a frequência cardíaca é a mais baixa e os intervalos entre batimentos variam ao máximo.

Os controles deslizantes e as predefinições funcionam quando o JavaScript está ativado.

Mais freio: um coração mais lento e intervalos entre batimentos que variam mais. Mais acelerador: um coração mais rápido e intervalos mais regulares. A VFC em repouso mostra sobretudo o quanto o freio está apertado.

Um coração bate na frequência definida por dois controles deslizantes, um para o freio vagal (parassimpático) e outro para o acelerador (simpático). Uma faixa de batimentos e uma linha do intervalo antes de cada batimento mostram o quanto o ritmo é regular. Aumentar o freio desacelera o coração e faz os intervalos variarem mais, e por isso o RMSSD sobe. Aumentar o acelerador acelera o coração e deixa os intervalos mais regulares, e por isso o RMSSD cai. Botões ajustam os controles para as posições deitada, sentada e em pé, cada uma com uma explicação curta: ficar em pé afrouxa o freio e aperta o acelerador.

Alguns pesquisadores recomendam medir na posição deitada logo ao acordar, quando a medição é menos afetada por fatores externos (Laborde e colaboradores, 2017). Sentar também funciona, desde que você use sempre a mesma posição e se acomode nela antes de começar. Laborde e colaboradores descrevem um registro de repouso na posição sentada como exemplo. O que você não deve fazer é misturá-las: uma medição sentada na terça e uma deitada na quarta medem duas coisas diferentes.

A opção ortostática

Alguns aplicativos e relógios oferecem um teste que usa essa mudança de propósito. Você fica 2 minutos na posição deitada ou sentada, sem se mexer, e depois 2 minutos em pé, e o aplicativo registra a frequência cardíaca e o RMSSD nas duas posições, além do pico de frequência cardíaca logo depois de você se levantar. A versão da Polar, por exemplo, compara cada teste com a faixa normal individual depois de quatro testes em 28 dias. O teste leva mais tempo que uma medição simples e exige uma cinta peitoral, mas acrescenta um pequeno desafio repetível à checagem matinal. A página O que é um teste ortostático de VFC e devo fazer um? explica como interpretá-lo.

Respiração: natural ou ritmada?

A rapidez e a profundidade com que você respira alteram a VFC. As diretrizes de pesquisa recomendam respirar naturalmente nas medições de repouso (Laborde e colaboradores, 2017). A respiração lenta, em torno de seis respirações por minuto, faz o coração acelerar e desacelerar muito mais a cada respiração, e por isso a VFC sobe enquanto você respira assim (Lehrer e Gevirtz, 2014). Isso é útil como exercício de relaxamento, mas estraga uma medição de acompanhamento se você só fizer isso em alguns dias.

Use o guia de respiração para sentir como é respirar devagar, e não durante a medição diária. Pare se sentir tontura.

Sinais de uma medição ruim

Descarte a medição e meça de novo se:

  • você se mexeu ou falou durante a medição, ou houve alguma interrupção;
  • o aplicativo sinalizou problema de sinal, movimento ou batimentos extras;
  • o valor ficou muito fora da faixa habitual e você puder ver uma causa óbvia, como um solavanco no traçado.

Não guarde uma medição estragada esperando que ela se compense na média. O RMSSD é calculado a partir das diferenças entre batimentos vizinhos, de modo que um batimento perdido ou extra cria uma diferença falsa enorme. Em registros curtos, mesmo alguns batimentos corrigidos podem alterar o RMSSD (Peltola, 2012). Batimentos extras que nascem no próprio coração ( batimentos ectópicos Batimento ectópico Batimento que se origina fora do marca-passo natural do coração e costuma chegar antes da hora. É comum, mas distorce a VFC se não for removido ou corrigido. Mais sobre Batimento ectópico ) também precisam ser removidos ou substituídos antes de a VFC ser calculada (Task Force, 1996; Quigley e colaboradores, 2024). Converse com um médico se o aplicativo sinalizar batimentos irregulares com frequência ou se você sentir palpitações.

Uma medição que não combina com o que você sente não está automaticamente errada. Se o registro estava limpo, guarde-o. A aula 10 mostra como avaliar essa medição em relação à linha de base Linha de base O seu nível habitual de VFC e a faixa em que ela costuma variar, obtidos de semanas de medições feitas sempre do mesmo modo. Comparar uma medição com a sua linha de base diz mais do que compará-la com a de outras pessoas. Mais sobre Linha de base .

Se você usa dados noturnos

O mesmo raciocínio vale para anéis e relógios. Mantenha o horário de dormir razoavelmente regular, use o dispositivo do mesmo jeito todas as noites e anote tudo o que altere a noite, como álcool tarde da noite, uma refeição pesada ou um treino tardio. Veja os prós e contras de cada abordagem em A VFC da noite ou a da manhã é mais útil? A página Cafeína e VFC: o café reduz a VFC? explica por que o café deve esperar até depois da medição. Se você mede com o celular, veja A câmera do celular consegue medir a VFC? Para os métodos em geral, veja Como medir a VFC: sensores, momento e precisão.

Próxima aula: Linha de base da VFC e como ler tendências.

Exercício prático

Por 7 dias, faça uma medição de 2 minutos no mesmo horário e na mesma posição. A cada dia, anote o horário, a posição, como dormiu e se consumiu cafeína ou álcool no dia anterior. Você vai usar essas anotações na aula 10.

Verifique o que você aprendeu

Acerte 3 de 4 (60%) para passar no quiz e marcar esta aula como concluída. Você pode tentar quantas vezes quiser; as opções são embaralhadas a cada tentativa e a melhor pontuação fica salva.

As perguntas abaixo podem ser lidas sem JavaScript. Para conferir as respostas, é preciso ativar o JavaScript.

Pergunta 1 O que mais importa para uma medição de VFC útil?
Pergunta 2 Você costuma medir na posição deitada, mas hoje mediu na posição sentada. O que esperar?
Pergunta 3 Você fez respiração lenta e ritmada na medição de hoje, mas não nos outros dias. A VFC está bem mais alta. Por quê?
Pergunta 4 O aplicativo sinaliza movimento e batimentos extras em uma medição. O que fazer?

Mapa do curso

Fontes

  1. Orthostatic Test with Grit X Pro/Street X/Vantage V2 Polar Support
  2. Heart rate variability and cardiac vagal tone in psychophysiological research: recommendations for experiment planning, data analysis, and data reporting Frontiers in Psychology, 2017
  3. Heart rate variability: are you using it properly? Standardisation checklist of procedures Brazilian Journal of Physical Therapy, 2020
  4. Validity of (ultra-)short recordings for heart rate variability measurements PLOS ONE, 2015
  5. Minimal window duration for accurate HRV recording in athletes Frontiers in Neuroscience, 2017
  6. Heart rate variability biofeedback: how and why does it work? Frontiers in Psychology, 2014
  7. Role of editing of R–R intervals in the analysis of heart rate variability Frontiers in Physiology, 2012
  8. Heart rate variability: standards of measurement, physiological interpretation and clinical use Circulation (Task Force of the European Society of Cardiology and the North American Society of Pacing and Electrophysiology), 1996
  9. Publication guidelines for human heart rate and heart rate variability studies in psychophysiology—Part 1: Physiological underpinnings and foundations of measurement Psychophysiology, 2024