O diabetes afeta a VFC?

Pessoas com diabetes tendem a ter variabilidade da frequência cardíaca (VFC) mais baixa e, com o tempo, o diabetes pode lesar os nervos que controlam a frequência cardíaca, uma condição chamada neuropatia autonômica cardíaca. Os médicos a diagnosticam com testes padronizados feitos à beira do leito, e não com um relógio ou anel. Se você tem diabetes, a tendência da VFC pode ser interessante, mas não serve como exame de rastreamento.

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Pontos principais

  • Em média, pessoas com diabetes tipo 2 têm VFC mais baixa do que pessoas sem diabetes.
  • O diabetes pode lesar os nervos que controlam a frequência cardíaca. Os médicos chamam isso de neuropatia autonômica cardíaca (NAC).
  • A NAC é diagnosticada com testes padronizados feitos à beira do leito, como as mudanças da frequência cardíaca durante a respiração profunda e ao ficar em pé, e não com um relógio ou anel.
  • A NAC em fase inicial pode não causar sintomas; por isso, pergunte à equipe que cuida do seu diabetes se convém fazer uma avaliação.
  • Tontura ou sensação de desmaio ao ficar em pé, pulsação em repouso acima de 100 ou dificuldade para perceber o açúcar baixo no sangue são motivos para conversar com um médico.

Sim. Em média, pessoas com diabetes têm menor variabilidade da frequência cardíaca (VFC) e, ao longo dos anos, o diabetes pode lesar os nervos que controlam o coração. Essa lesão é diagnosticada com testes padronizados em consultório, e não com o valor de VFC de um relógio ou anel.

O que a pesquisa mostra

Uma revisão de 2018 reuniu 25 estudos que registraram ECGs de 24 horas em 1.356 pessoas com diabetes tipo 2 e em 1.576 pessoas sem a doença (Benichou e colaboradores, 2018). Os grupos com diabetes tiveram VFC mais baixa em quase todas as medidas, inclusive o SDNN SDNN O desvio padrão de todos os intervalos NN de um registro, em milissegundos. Mede a variabilidade global, e o valor depende muito da duração do registro. Mais sobre SDNN e o RMSSD RMSSD Raiz quadrada da média dos quadrados das diferenças sucessivas: medida de VFC calculada a partir de quanto cada intervalo entre batimentos difere do seguinte, em milissegundos. Reflete principalmente a atividade vagal. Mais sobre RMSSD , as medidas que relógios e anéis mais mostram. As relações entre a VFC e a glicemia ou o tempo desde o diagnóstico foram inconsistentes, de modo que a revisão não consegue dizer quanto a VFC muda à medida que a glicemia sobe.

Como em qualquer comparação entre grupos, as faixas se sobrepõem. Muitas pessoas com diabetes têm VFC dentro do habitual, e muitas pessoas com VFC baixa não têm diabetes.

Neuropatia autonômica cardíaca

Com o tempo, o diabetes pode lesar os nervos, inclusive os nervos autonômicos que aceleram e desaceleram o coração. A glicemia mal controlada é um dos principais fatores de risco e, no diabetes tipo 2, também o são a pressão alta, o colesterol alto e a obesidade. Quando isso afeta o controle do coração e da pressão arterial, os médicos falam em neuropatia autonômica cardiovascular ou cardíaca (NAC). Um painel internacional de especialistas a define como o controle prejudicado do coração e da circulação em uma pessoa com diabetes, depois de afastadas outras causas (Spallone e colaboradores, 2011).

O que os grupos de especialistas dizem sobre a NAC:

  • Cerca de 1 em cada 5 pessoas com diabetes tem NAC confirmada, e a proporção chega a 65% com mais idade e mais tempo de diabetes (Spallone e colaboradores, 2011).
  • A Associação Americana de Diabetes (ADA) considera a NAC um fator de risco independente para morte por doença cardíaca, ritmos cardíacos irregulares e isquemia silenciosa, um problema do coração sem a dor no peito habitual (Pop-Busui e colaboradores, 2017).
  • No início, ela pode não causar sintoma nenhum. Mais tarde, os sinais incluem frequência cardíaca em repouso Frequência cardíaca em repouso Quantas vezes por minuto o coração bate quando você está em repouso completo. Em adultos, costuma ficar entre 60 e 100 batimentos por minuto, e é menor em atletas bem treinados. Mais sobre Frequência cardíaca em repouso acima de 100, pouca tolerância ao exercício e queda da pressão arterial ao ficar em pé sem o aumento habitual da frequência cardíaca (Pop-Busui e colaboradores, 2017).

Como a NAC é diagnosticada

A VFC faz parte do diagnóstico, mas medida de um modo específico e controlado. Segundo a ADA, a NAC inicial pode aparecer apenas como uma variação menor da frequência cardíaca durante a respiração profunda. Os médicos podem testar isso no consultório com um ECG ECG Um registro da atividade elétrica do coração, feito com eletrodos na pele. Os intervalos RR obtidos por ECG são o padrão de referência para medir a VFC. Mais sobre ECG feito durante 1 a 2 minutos de respiração profunda, ou quando a pessoa se levanta depois de estar sentada (Pop-Busui e colaboradores, 2017). São os chamados testes de reflexo cardiovascular, que continuam sendo o padrão de referência para avaliar a NAC (Benichou e colaboradores, 2018).

O painel de especialistas classifica a NAC em estágios conforme o número de testes alterados. Um teste de frequência cardíaca alterado sugere NAC possível ou inicial, dois ou mais a confirmam, e uma queda da pressão arterial ao ficar em pé, somada a isso, indica NAC avançada (Spallone e colaboradores, 2011). Os médicos também precisam descartar outras doenças e medicamentos que podem imitar a NAC.

O documento de padrões de 1996 da Sociedade Europeia de Cardiologia e da Sociedade Norte-Americana de Estimulação e Eletrofisiologia, que definiu medidas como o SDNN e o RMSSD, apontou a VFC reduzida como um sinal precoce de alerta da neuropatia diabética (Task Force, 1996). Isso se refere à VFC medida em condições clínicas e interpretada por um médico, e não a uma pontuação noturna de relógio ou anel.

Por que um relógio ou anel não serve para rastrear a NAC

  • Medição diferente. Os testes de consultório medem como a frequência cardíaca responde a um estímulo definido, como a respiração profunda ou ficar em pé. Um relógio ou anel mede a VFC em repouso durante o sono ou no horário que você escolher.
  • Muitas outras causas. Sono ruim, álcool, doenças, treino pesado, idade e muitos medicamentos também reduzem a VFC. Veja as páginas O que significa uma VFC baixa? e Medicamentos afetam a VFC?
  • Nenhum critério usa relógios ou anéis. Os critérios diagnósticos se baseiam em testes de consultório, e nenhum deles usa uma pontuação de relógio ou anel.
  • Uma medição normal não é atestado de saúde. Alguns problemas de ritmo podem até aumentar a VFC. Veja a página A VFC pode detectar problemas no coração?

O que ajuda

A ADA recomenda um bom controle da glicemia o mais cedo possível para prevenir ou retardar a NAC no diabetes tipo 1 e, no diabetes tipo 2, uma abordagem que trate a glicemia junto com os demais fatores de risco para o coração (Pop-Busui e colaboradores, 2017).

O exercício também pode melhorar a VFC. Uma revisão de 2021 com 21 estudos e 523 pessoas com diabetes tipo 2 constatou que o treinamento físico aumentou o SDNN, o RMSSD e outras medidas de VFC (Picard e colaboradores, 2021). O treinamento de resistência aeróbia teve as evidências mais fortes, e o treinamento supervisionado pareceu ajudar mais. Se você acompanha a VFC, faz sentido procurar um aumento gradual com o exercício regular, mas ele não prova que a lesão dos nervos melhorou.

Quando conversar com um médico

Se você tem diabetes, pergunte à equipe que cuida do seu diabetes se convém fazer uma avaliação para NAC, sobretudo se tiver outras complicações, como problemas nos olhos, nos rins ou nos nervos dos pés. A ADA lista como sintomas mais comuns a tontura, a fraqueza, as palpitações ou a sensação de desmaio ao se levantar (Pop-Busui e colaboradores, 2017). Converse com o médico se notar esses sintomas, uma pulsação em repouso acima de 100 sem motivo claro ou se deixar de perceber os sinais de alerta habituais do açúcar baixo no sangue.

Procure atendimento de emergência em caso de dor no peito, desmaio ou dificuldade para respirar. Como a NAC está ligada a problemas cardíacos sem a dor no peito habitual, leve a sério também uma falta de ar súbita e inexplicada, qualquer que seja o valor da VFC.

Perguntas frequentes

Minha VFC está baixa e eu tenho diabetes. Isso quer dizer que tenho lesão nos nervos?

Não dá para saber pela medição de um relógio ou anel. A VFC baixa tem muitas causas do dia a dia, e a lesão dos nervos do coração é diagnosticada com testes padronizados em ambiente clínico. Pergunte à equipe que cuida do seu diabetes se convém fazer o exame.

O exercício pode aumentar a VFC no diabetes tipo 2?

Em uma revisão de 21 estudos, o treinamento físico, sobretudo o de resistência aeróbia, aumentou várias medidas de VFC em pessoas com diabetes tipo 2. Converse com a equipe de saúde antes de começar um novo plano de exercícios.

Fontes

  1. Heart rate variability in type 2 diabetes mellitus: A systematic review and meta-analysis PLOS ONE, 2018
  2. Cardiovascular autonomic neuropathy in diabetes: clinical impact, assessment, diagnosis, and management Diabetes/Metabolism Research and Reviews (Toronto Consensus Panel on Diabetic Neuropathy), 2011
  3. Diabetic Neuropathy: A Position Statement by the American Diabetes Association Diabetes Care, 2017
  4. Effect of exercise training on heart rate variability in type 2 diabetes mellitus patients: A systematic review and meta-analysis PLOS ONE, 2021
  5. Heart rate variability: standards of measurement, physiological interpretation and clinical use Circulation (Task Force of the European Society of Cardiology and the North American Society of Pacing and Electrophysiology), 1996