A depressão reduz a VFC?

Estudos que comparam grupos encontram variabilidade da frequência cardíaca (VFC) em repouso mais baixa em pessoas com depressão maior, inclusive nas que não tomam medicamentos. A diferença é de pequena a moderada, e alguns antidepressivos, sobretudo os tricíclicos, um grupo mais antigo, podem reduzir ainda mais a VFC. A VFC não permite diagnosticar a depressão nem mostra até que ponto o tratamento está funcionando.

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Pontos principais

  • Em média, pessoas com depressão maior têm VFC em repouso mais baixa do que pessoas sem a doença, inclusive as que não tomam nenhum medicamento.
  • A diferença é de pequena a moderada, então a VFC não consegue dizer se uma pessoa em particular tem depressão.
  • Os antidepressivos tricíclicos reduzem a VFC; as evidências sobre os ISRS (um tipo de antidepressivo) são divergentes.
  • Em uma revisão, a VFC continuou baixa mesmo quando o tratamento aliviou os sintomas; por isso, a forma como você se sente é o melhor guia para a recuperação.
  • Nunca interrompa nem troque um antidepressivo por causa da VFC. Se estiver passando por um momento difícil, converse com um médico.

Em média, sim. Pessoas com depressão maior tendem a ter menor variabilidade da frequência cardíaca (VFC) em repouso do que pessoas sem a doença, e alguns antidepressivos podem reduzi-la ainda mais. A diferença é modesta, e a VFC não diz se você tem depressão nem se o tratamento está funcionando.

O que a pesquisa mostra

Várias revisões grandes compararam a VFC em repouso de pessoas com depressão maior e de pessoas sem ela.

  • Adultos sem medicação. Uma revisão de 2019 reuniu 21 estudos, com 2.250 adultos com depressão maior que não tomavam medicamentos e 1.982 pessoas sem a doença (Koch e colaboradores, 2019). Medidas de VFC como o RMSSD RMSSD Raiz quadrada da média dos quadrados das diferenças sucessivas: medida de VFC calculada a partir de quanto cada intervalo entre batimentos difere do seguinte, em milissegundos. Reflete principalmente a atividade vagal. Mais sobre RMSSD , o SDNN SDNN O desvio padrão de todos os intervalos NN de um registro, em milissegundos. Mede a variabilidade global, e o valor depende muito da duração do registro. Mais sobre SDNN e a potência HF Potência HF A variância dos intervalos entre os batimentos que cai na banda de 0,15 a 0,40 Hz, em ms²: a faixa da respiração normal. Reflete principalmente a atividade vagal quando a respiração é de 9 a 24 por minuto. Mais sobre Potência HF foram mais baixas nos grupos com depressão. No RMSSD, a medida que a maioria dos relógios e anéis mostra, a diferença foi de pequena a moderada.
  • Depressão sem doença cardíaca. Uma revisão de 2010 reuniu 18 estudos, com 673 pessoas com depressão e 407 sem ela, nenhuma delas com doença cardíaca (Kemp e colaboradores, 2010). A VFC foi mais baixa nos grupos com depressão, e as pessoas com depressão mais grave tenderam a ter VFC mais baixa.
  • Em diferentes condições de saúde mental. Uma revisão de 2016, com 140 estudos, encontrou VFC mais baixa em transtornos de humor, de ansiedade e psicóticos, e a diferença persistiu em pessoas que não tomavam medicamentos (Alvares e colaboradores, 2016). A revisão também constatou que a qualidade dos estudos alterava o tamanho aparente da diferença.

Esses são valores médios de grupos. Os dois grupos se sobrepõem muito, então muitas pessoas com depressão têm VFC dentro do habitual e muitas pessoas com VFC baixa não têm depressão.

E os antidepressivos?

Os medicamentos também influenciam, e os resultados nem sempre concordam.

  • Na revisão de 2010, os antidepressivos tricíclicos, um grupo mais antigo de medicamentos, reduziram a VFC. Os ISRS (inibidores seletivos da recaptação de serotonina) e dois outros antidepressivos (mirtazapina e nefazodona) não tiveram efeito claro (Kemp e colaboradores, 2010).
  • Um estudo holandês com 2.373 adultos constatou que as pessoas que tomavam ISRS, tricíclicos ou outros antidepressivos tinham VFC mais baixa do que as pessoas saudáveis e do que as pessoas com depressão que não tomavam medicamentos (Licht e colaboradores, 2008). Depois que os pesquisadores levaram em conta a medicação, a associação entre depressão e SDNN desapareceu, e a associação com a VFC ligada à respiração ficou bem mais fraca. Os autores concluíram que os antidepressivos pareciam explicar boa parte da diferença.
  • A revisão de 2016 encontrou quedas menores, mas reais, da VFC com alguns antidepressivos e antipsicóticos (Alvares e colaboradores, 2016).

Assim, tanto a depressão quanto o tratamento dela podem reduzir a VFC, e em uma única medição não dá para saber qual das duas causas está agindo. Antidepressivos são receitados por bons motivos. Nunca interrompa nem troque um antidepressivo por causa da VFC; se o valor preocupar você, converse com o médico que o receitou. Para outros medicamentos, veja a página Medicamentos afetam a VFC?

Por que a depressão e a VFC podem estar ligadas

A VFC reflete sobretudo o ramo calmante do sistema nervoso, que desacelera o coração pelo nervo vago Nervo vago O principal nervo do sistema nervoso parassimpático, que vai do tronco encefálico ao coração, aos pulmões e ao intestino. Os sinais rápidos que envia ao coração geram a maior parte da VFC batimento a batimento. Mais sobre Nervo vago . Uma VFC mais baixa na depressão aponta para menos dessa influência calmante. A aula O sistema nervoso por trás da VFC explica como isso funciona.

Os estudos mostram uma associação, não causa e efeito. A depressão costuma alterar o sono, a atividade, o apetite e o consumo de álcool, e cada um desses fatores pode, por conta própria, fazer a VFC variar.

O que fazer com os seus dados

  • Não use a VFC como teste de humor. Uma medição baixa depois de uma noite ruim ou de um resfriado é igual à de um dia em que o humor está baixo. Veja a página O que significa uma VFC baixa?
  • Anote mudanças grandes na rotina. Se começar ou mudar um medicamento, marque a data no aplicativo. A linha de base Linha de base O seu nível habitual de VFC e a faixa em que ela costuma variar, obtidos de semanas de medições feitas sempre do mesmo modo. Comparar uma medição com a sua linha de base diz mais do que compará-la com a de outras pessoas. Mais sobre Linha de base pode se deslocar, e o marcador evita que você interprete essa mudança como uma semana ruim.
  • Afaste-se um pouco dos números se acompanhá-los fizer você se sentir pior. Um valor que cai toda manhã pode alimentar a preocupação ou o humor baixo. Médias semanais bastam, e fazer uma pausa não tem problema.

Quando conversar com um médico

A depressão é diagnosticada pelos sintomas, não por uma medição do coração. O Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos afirma que o diagnóstico exige sintomas durante a maior parte do dia, quase todos os dias, por pelo menos duas semanas (NIMH). Entre eles estão humor deprimido ou vazio, perda de interesse por coisas de que você gostava, sensação de desesperança ou de inutilidade, cansaço e alterações do sono ou do apetite.

Se estiver passando por um momento difícil, converse com um médico, qualquer que seja o valor da VFC. Se tiver pensamentos de se machucar, entre em contato imediatamente com o número de emergência da sua região ou com um serviço de apoio para situações de crise.

Perguntas frequentes

Minha VFC caiu depois que comecei um antidepressivo. Devo parar de tomá-lo?

Não. Alguns antidepressivos podem reduzir a VFC, mas isso não é motivo para interromper o medicamento nem para mudar a dose por conta própria. Se isso preocupar você, pergunte ao médico que o receitou.

Uma VFC baixa pode indicar que tenho depressão?

Não. Sono ruim, álcool, doenças, treino pesado e muitos medicamentos também reduzem a VFC. A depressão é diagnosticada por um profissional de saúde a partir dos sintomas, não por uma medição do coração.

Fontes

  1. A meta-analysis of heart rate variability in major depression Psychological Medicine, 2019
  2. Impact of Depression and Antidepressant Treatment on Heart Rate Variability: A Review and Meta-Analysis Biological Psychiatry, 2010
  3. Association Between Major Depressive Disorder and Heart Rate Variability in the Netherlands Study of Depression and Anxiety (NESDA) Archives of General Psychiatry, 2008
  4. Autonomic nervous system dysfunction in psychiatric disorders and the impact of psychotropic medications: a systematic review and meta-analysis Journal of Psychiatry and Neuroscience, 2016
  5. Depression National Institute of Mental Health